Tarifa de 25% dos EUA: o que está em jogo na audiência que pode custar bilhões ao Brasil

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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Tarifa de 25% dos EUA: o que está em jogo na audiência que pode custar bilhões ao Brasil

Segundo e último dia de audiência pública em Washington antecede decisão final do governo americano, prevista para 15 de julho.

Termina nesta terça-feira, em Washington, a audiência pública que discute a proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, além de uma sobretaxa de 12,5% ligada a outra investigação, sobre suposto uso de trabalho forçado. O encontro reúne representantes do governo brasileiro, entidades empresariais e autoridades americanas na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, e é considerado a última chance de o setor produtivo tentar reverter ou suavizar a medida antes da decisão final, marcada para o dia 15 de julho. Para exportadores e empresas que dependem do mercado americano, a pergunta mais urgente é simples: a tarifa vai mesmo entrar em vigor, e o que muda na prática se isso acontecer.

Como funciona a investigação da Seção 301

A investigação foi aberta em julho de 2025 pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana de 1974. Esse mecanismo permite ao governo dos Estados Unidos investigar e, se concluir que há prejuízo, punir práticas comerciais de outros países consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas americanas. No caso do Brasil, o relatório final do USTR aponta seis frentes de questionamento: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas preferenciais em acordos com outros países, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

Entre os pontos mais debatidos está o Pix, sistema de pagamentos instantâneos administrado pelo Banco Central. O governo americano argumenta que a ferramenta distorceria a livre concorrência no setor financeiro, enquanto o governo brasileiro rebate afirmando que o Pix é uma infraestrutura pública aberta, usada normalmente por empresas estrangeiras, incluindo companhias americanas, e que os próprios Estados Unidos mantêm um sistema parecido, o FedNow, administrado pelo Federal Reserve. A discussão também envolve acordos comerciais que o Brasil mantém com México e Índia, considerados pelo USTR como preferenciais em prejuízo de exportadores americanos.

O que aconteceu na audiência desta semana

A audiência começou na segunda-feira e segue até esta terça, dividida em catorze painéis com participação de ao menos quarenta entidades e empresas dos dois países. O governo brasileiro decidiu enviar uma observadora para acompanhar os debates, enquanto o senador Flávio Bolsonaro esteve entre os representantes brasileiros, defendendo uma solução negociada e pedindo que a tarifa não seja aplicada de imediato. Vale reforçar que a audiência, por si só, não decide se a tarifa será aplicada: ela é apenas mais uma etapa do rito legal antes da palavra final do USTR, que deve considerar tudo o que foi apresentado nos dois dias de debate.

Na manifestação escrita enviada ao USTR antes da audiência, o governo brasileiro rejeitou integralmente as acusações, argumentando que a investigação foi construída a partir de divergências sobre políticas públicas internas, sem provar dano direto ao comércio entre os dois países. Segundo Brasília, usar a Seção 301 para questionar escolhas regulatórias de um país soberano ampliaria o instrumento além de sua finalidade original. Após o fim da audiência, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio ainda deve ter mais duas reuniões com o governo americano antes do prazo final de 15 de julho, o que mantém aberta a porta para um acordo de última hora.

Quais os impactos possíveis para exportadores brasileiros

Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria, caso as duas tarifas propostas sejam confirmadas, cerca de 4.187 produtos exportados pelo Brasil seriam afetados, com perda estimada em US$ 14,9 bilhões em exportações. Em alguns casos, a soma das novas alíquotas pode elevar a taxação total para até 37,5% sobre determinados bens. Entre os setores mais expostos estão máquinas pesadas, transformadores elétricos, madeira, granito trabalhado e etanol, produtos em que o Brasil é hoje o principal ou um dos principais fornecedores do mercado americano. O efeito, segundo a entidade, tende a se espalhar da indústria exportadora para o comércio interno, com impacto estimado em R$ 22,5 bilhões sobre o consumo das famílias brasileiras.

Além do efeito direto sobre as empresas exportadoras, analistas apontam um impacto macroeconômico relevante, com estimativa de redução entre 0,5 e 0,6 ponto percentual no PIB brasileiro em 2026, o equivalente a uma perda total de R$ 76 bilhões. Para as empresas mais expostas ao mercado americano, o cenário reforça a importância de diversificar destinos de exportação e acompanhar de perto o desfecho das negociações, já que o resultado da decisão do dia 15 de julho deve moldar boa parte da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos pelos próximos anos.

O desfecho dessa disputa comercial deve se tornar mais claro nos próximos dias, à medida que o governo americano avalia os argumentos apresentados na audiência e conclui as últimas rodadas de negociação com o Brasil. Independentemente do resultado final, o episódio já deixa uma lição para os exportadores brasileiros: a dependência excessiva de um único mercado externo carrega riscos que vão além da competitividade de preço, e passam por decisões políticas tomadas fora do controle das próprias empresas. Acompanhar de perto os desdobramentos junto a entidades setoriais e órgãos como o MDIC segue sendo o caminho mais seguro para se antecipar a mudanças bruscas nas regras do jogo.

Fontes:
CNN Brasil: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/comeca-nesta-segunda-feira-6-audiencia-sobre-tarifas-de-25-nos-eua/
Correio Braziliense: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/07/7456103-audiencia-nos-eua-nao-decide-tarifa-contra-brasil-entenda-como-funciona.html
Times Brasil | CNBC: https://timesbrasil.com.br/brasil/entenda-a-investigacao-da-secao-301-usada-pelos-estados-unidos-contra-o-brasil/
Forbes: https://forbes.com.br/forbes-money/2026/07/a-nova-investida-dos-eua-contra-o-brasil-pode-custar-us-149-bilhoes-em-exportacoes/
Jornal Aurora: https://jornalaurora.com.br/editorias/mundo/entenda-audiencia-nos-eua-sobre-tarifas-de-25-a-produtos-brasileiros/

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