Balanceamento hidráulico e o quarto quente do último andar

Satoshi Noriyama
Satoshi Noriyama
5 Min de leitura
Gianmarco Marchetti

Na avaliação de Gianmarco Marchetti, administrador da Marco Marchetti Hotéis Ltda., conforto térmico não se compra só com potência. O caso a seguir mostra por quê: um hotel troca o chiller por um modelo maior e mais eficiente, e as reclamações de quarto quente aumentam em vez de desaparecer.

A situação é fictícia e anonimizada, mas reúne um roteiro comum em edifícios com ar-condicionado central por água gelada. A causa não está na máquina nova. Está no caminho que a água percorre até cada quarto, e o nome técnico do problema é balanceamento hidráulico.

Doze andares, um chiller novo e hóspedes com calor

O hotel do exemplo tem doze andares, com fan coils em cada apartamento. Gianmarco Marchetti pontua que, depois da troca da central, os andares mais baixos passaram a ficar frios demais, enquanto os quartos do topo não chegavam à temperatura pedida no termostato, sobretudo no fim da tarde.

A primeira reação da equipe foi aumentar a rotação das bombas de água gelada. O resultado piorou o quadro. Surgiu ruído nas válvulas dos primeiros andares, a conta de energia subiu e os quartos do último andar melhoraram pouco. Mais pressão no sistema não resolvia um problema de distribuição.

Por que a água gelada chega ao lugar errado?

A água segue o caminho de menor resistência. Os fan coils mais próximos da bomba, com trechos de tubulação curtos, recebem vazão acima da necessária. Os mais distantes, no fim do ramal, disputam o que sobra.

Esse excesso tem um efeito menos visível. Quando passa água demais por uma serpentina, ela não tem tempo de trocar calor com o ar e volta para a central ainda fria. A diferença entre a temperatura de ida e a de retorno, o chamado delta T, cai. Com delta T baixo, a central precisa bombear mais água para entregar a mesma capacidade, e o chiller deixa de operar na faixa em que foi selecionado. É a síndrome do baixo delta T, típica de sistemas que trabalham em carga parcial, como um hotel ao longo do dia.

Como o balanceamento foi refeito?

A correção começou pela identificação da válvula crítica, a primeira a ficar sem água, normalmente a última do ramal mais distante. Com todas as válvulas de controle comandadas a 100% de abertura, a equipe mediu a vazão nesse ponto e ajustou a bomba até atingir o valor de projeto ali.

Em seguida, cada ramal recebeu o ajuste das válvulas de balanceamento, do mais próximo ao mais distante, limitando o excesso nos andares baixos. Nos circuitos em que a carga variava muito ao longo do dia, a solução foi instalar válvulas de controle independentes de pressão, que mantêm a vazão definida mesmo quando a pressão da rede oscila. Válvulas de balanceamento automáticas comuns limitam a vazão apenas no pico e não corrigem o comportamento em carga parcial.

Com a água distribuída, foi possível reduzir a rotação das bombas. Os andares baixos deixaram de gelar, os altos passaram a atingir a temperatura pedida e o ruído nas válvulas sumiu. Gianmarco Marchetti aponta que esse ganho duplo, de conforto e de consumo, é o argumento que justifica repetir a medição de tempos em tempos.

O conforto que depende de uma válvula

O caso inverte uma intuição comum em reformas: a de que o equipamento maior resolve o desconforto. Na prática, a central só entrega o que a rede consegue distribuir, e uma rede desbalanceada desperdiça tanto a potência nova quanto a energia das bombas.

Por isso, qualquer troca de chiller deveria vir acompanhada de medição de vazões e de um novo balanceamento. É um serviço discreto, feito com instrumentos de medição e ajustes finos, que não aparece em nenhum folheto do hotel. Na leitura de Gianmarco Marchetti, é justamente esse tipo de trabalho invisível que separa uma reforma cara de uma reforma que funciona para o hóspede.

Compartilhe esse artigo