Existe um sentido que a medicina geriátrica raramente avalia e que carrega informações clínicas surpreendentemente relevantes sobre o envelhecimento cerebral: o olfato. Entretanto, o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, integra a avaliação olfativa à sua prática clínica por entender que esse sentido aparentemente secundário revela dimensões importantes do estado neurológico do idoso. De fato, a perda progressiva da capacidade de sentir cheiros, chamada de hiposmia quando parcial e anosmia quando total, afeta uma parcela expressiva dos idosos e ainda é tratada como curiosidade clínica em vez de sinal de alerta.
Neste artigo, você vai entender por que o olfato importa clinicamente e o que sua perda pode indicar. Leia com atenção!
Por que o olfato declina com o envelhecimento?
O sistema olfativo é diretamente conectado ao cérebro por meio do nervo olfatório, e essa proximidade neurológica o torna um dos primeiros sistemas a refletir alterações cerebrais degenerativas. Com o envelhecimento, o número de neurônios olfativos diminui progressivamente, a mucosa nasal perde eficiência e a capacidade de discriminar odores diferentes se reduz. Esse processo é gradual e frequentemente passa despercebido pelo próprio idoso, que se adapta à perda sem consciência de que ela está ocorrendo.
Segundo o doutor Yuri Silva Portela, o dado clinicamente mais relevante é a associação entre perda olfativa precoce e doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer. A hiposmia frequentemente precede em anos o aparecimento dos sintomas motores ou cognitivos típicos dessas condições, o que a transforma num potencial marcador precoce de risco neurológico. Em suma, identificar essa perda e investigá-la adequadamente abre uma janela de intervenção preventiva que o diagnóstico tardio fecha definitivamente.
A perda olfativa também tem impacto prático imediato sobre a segurança e a qualidade de vida do idoso. Quem não sente cheiro não detecta fumaça, gás ou alimentos estragados de forma eficiente. Diante disso, essa vulnerabilidade silenciosa aumenta o risco de acidentes domésticos e de intoxicação alimentar que nenhuma avaliação convencional rastreia.
Qual é a relação entre olfato e nutrição no idoso?
O olfato é responsável por grande parte do que percebemos como sabor. No momento em que ele declina, a experiência alimentar empobrece, o prazer de comer diminui e o apetite se reduz de formas que têm impacto direto sobre o estado nutricional do idoso. Por isso, esse mecanismo explica parte da perda de peso não intencional e da desnutrição observadas em idosos sem causa orgânica aparente que justifique o quadro.

O doutor Yuri Silva Portela aponta que a conexão entre perda olfativa e desnutrição raramente é investigada na prática clínica convencional. Dado que o idoso que come menos é frequentemente orientado sobre alimentação sem que a causa subjacente seja identificada. Portanto, perguntar sobre a capacidade de sentir cheiros e sabores é uma adição simples à anamnese que pode revelar um elo explicativo importante para um problema que parecia sem solução.
Como avaliar e abordar a perda olfativa no idoso?
A avaliação pode ser feita com recursos simples. Isto é, perguntar ao idoso se percebeu mudança na capacidade de sentir cheiros, se alimentos antes apreciados perderam atratividade e se já deixou de perceber odores que pessoas ao redor detectaram é suficiente para uma triagem inicial. Adicionalmente, testes com substâncias odorantes comuns, como café, canela ou álcool, completam essa avaliação sem necessidade de equipamento especializado.
Assim como destaca o fundador do projeto social Humaniza Sertão, o doutor Yuri Silva Portela, identificar hiposmia não encerra o processo diagnóstico. Já que ela abre uma investigação sobre causas que podem incluir desde rinite crônica e uso de medicamentos até sinais precoces de doenças neurológicas que merecem acompanhamento específico. Nas ações mensais do Humaniza Sertão nas comunidades do sertão de Quixadá, essa avaliação simples já foi incorporada como parte da triagem geriátrica.
O nariz como janela para o cérebro do idoso
O doutor Yuri Silva Portela acredita que avaliar o olfato do idoso é um gesto clínico de baixo custo e alto potencial informativo. Pergunte ao idoso que você ama se os cheiros ainda chegam com a mesma intensidade. Essa pergunta aparentemente simples pode abrir uma investigação que muda o curso do cuidado.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
