Durante muito tempo, escolher um mediador para um conflito corporativo era, na prática, escolher um nome conhecido: alguém sênior, com reputação estabelecida e uma rede de contatos que transmitia confiança às duas partes envolvidas. Esse critério ainda pesa, mas deixou de ser suficiente sozinho.
Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em mediação e gestão de conflitos empresariais, observa que o critério que mais mudou nos últimos anos não é quem o mediador conhece, e sim sua capacidade demonstrada de desenhar e conduzir um processo, algo bem diferente de apenas ter autoridade moral para sentar entre as partes.
O critério antigo: reputação e senioridade
Por muito tempo, bastava um nome respeitado para as partes aceitarem sentar à mesa com aquela pessoa como facilitadora. A lógica fazia sentido: reputação funcionava como um selo de imparcialidade, uma garantia informal de que ninguém estaria sendo manipulado. Esse critério ainda importa, especialmente nas primeiras conversas, quando ainda não existe outra base de confiança entre as partes, e um nome já conhecido dos dois lados reduz a resistência inicial em aceitar um estranho como facilitador.
O problema, explicita Haroldo Augusto Filho, é que a reputação diz pouco sobre a capacidade real de conduzir sessões difíceis, gerenciar momentos de impasse e manter as partes engajadas quando a conversa esfria no meio do processo. Duas mediações conduzidas pela mesma pessoa respeitada podem ter desfechos completamente diferentes, dependendo unicamente de como aquele profissional lida com o momento em que as partes param de falar.
O que mudou: domínio de processo pesa mais que domínio de assunto
A mudança mais visível é a valorização de quem sabe desenhar o processo de mediação em si: como sequenciar os encontros, quando separar as partes e quando reuni-las, como reformular uma posição travada em algo que ambos os lados consigam trabalhar. Essa habilidade é técnica, treinável e observável em processos anteriores, diferente da reputação, que é difícil de verificar objetivamente.

Haroldo Augusto Filho aponta que empresas mais experientes em mediação hoje pedem referências específicas sobre como o mediador conduziu impasses em processos anteriores, não apenas sobre sua trajetória geral. A pergunta relevante deixou de ser quem é essa pessoa e passou a ser como essa pessoa trabalha quando o processo trava.
Por que a especialidade no assunto ainda pesa, mas não decide sozinha?
Conhecimento do setor em disputa continua relevante, porque acelera a compreensão do contexto e evita que o mediador precise de explicações básicas que consomem tempo das sessões. Mas especialidade setorial sem habilidade de condução de processo produz alguém que entende o problema e ainda assim não consegue destravar a conversa entre as partes.
Haroldo Augusto Filho considera que o equilíbrio ideal combina as duas coisas, mas, se apenas uma pudesse ser escolhida, a habilidade de conduzir processo tende a produzir resultados mais consistentes do que a especialidade isolada, justamente porque é ela que decide se as partes chegam a algum lugar juntas.
Como aplicar esse critério na prática?
Antes de decidir, vale perguntar por casos concretos conduzidos pelo candidato, com atenção especial a processos que travaram em algum ponto e como esse impasse foi superado, não apenas aos casos que terminaram bem sem sobressaltos. Esse tipo de pergunta revela mais sobre a capacidade real do mediador do que qualquer lista de credenciais. Pedir para o próprio candidato descrever, em detalhe, um processo em que a mediação quase não deu certo costuma dizer mais sobre seu método do que qualquer apresentação de currículo.
A escolha de um mediador deixou de ser uma decisão sobre confiança abstrata e passou a ser uma decisão sobre competência demonstrável, o que, para Haroldo Augusto Filho, torna o processo de seleção mais trabalhoso, mas também mais confiável para quem depende do resultado.
