Arco Norte muda a rota e o preço do grão no Centro-Oeste

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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Wander Aguilera Almeida

Por décadas, praticamente toda a soja e o milho colhidos no Centro-Oeste seguiam o mesmo caminho até o mar: rodovias longas em direção aos portos de Santos ou Paranaguá, no Sul e Sudeste do país. O empresário Wander Aguilera Almeida acompanha, na rotina de intermediação de negócios agrícolas, como essa rota vem deixando de ser a única opção relevante para quem produz na região.

Portos como Itaqui, no Maranhão, e terminais no Pará e no Amazonas passaram a concentrar uma fatia cada vez maior das exportações de grãos do país, formando o que o setor chama de Arco Norte. Entender por que essa mudança acontece e o que ela representa na prática ajuda o produtor a enxergar oportunidades que simplesmente não existiam há poucos anos. Veja a seguir o que está por trás desse movimento e como ele pode influenciar a próxima negociação.

Por que o grão do Centro-Oeste está saindo cada vez mais pelo Norte?

A explicação começa na geografia. Para boa parte das fazendas do Mato Grosso e do Matopiba, a distância até um porto do Arco Norte é muito menor do que até Santos ou Paranaguá, o que reduz o trajeto rodoviário em centenas, às vezes milhares de quilômetros por viagem.

Investimentos em infraestrutura portuária e rodoviária ao longo da última década tornaram essa alternativa viável em escala. Wander Aguilera Almeida observa que essa combinação entre distância mais curta e estrutura mais madura é o que vem sustentando o crescimento contínuo dessa rota, safra após safra, mesmo em anos de produção recorde.

Outro fator relevante é o chamado frete de retorno: os mesmos caminhões e barcaças que levam grãos até o porto voltam carregados de fertilizantes importados, o que ajuda a diluir o custo total da viagem e barateia tanto a exportação quanto a compra de insumos para a próxima safra, num ciclo que se retroalimenta a cada ano.

O que essa mudança de rota representa no bolso do produtor?

Menos distância significa, na prática, menos frete embutido no custo de colocar o grão no destino final. Isso tende a se refletir no valor líquido que o produtor recebe pela saca, já que uma fatia menor do preço final é consumida pelo transporte.

Wander Aguilera Almeida
Wander Aguilera Almeida

Wander Aguilera Almeida expressa que essa vantagem logística também amplia o número de compradores dispostos a negociar com quem produz mais ao norte do Centro-Oeste, já que a rota deixou de ser um obstáculo tão relevante para empresas que antes preferiam operar mais perto do Sul do país.

Isso muda inclusive a forma como algumas negociações são estruturadas: comparar propostas hoje exige considerar não apenas o preço anunciado, mas também qual porto o comprador pretende usar para escoar aquele lote específico.

Os limites dessa nova rota que ainda merecem atenção

Nem tudo é vantagem sem ressalvas, alude o empresário Wander Aguilera Almeida. Parte considerável do escoamento pelo Arco Norte depende de hidrovias, e períodos de seca mais intensa podem reduzir o nível dos rios e limitar a capacidade de transporte fluvial justamente em momentos de pico de colheita.

O modal ferroviário na região também segue em desenvolvimento, e ainda existe dependência relevante do transporte rodoviário para levar a produção até os terminais portuários, o que significa que parte dos ganhos logísticos ainda depende de obras e investimentos que seguem em andamento.

Assim sendo, tratar essa rota como solução definitiva, sem levar em conta essas limitações sazonais e estruturais, pode levar o produtor a assumir compromissos de entrega que ficam mais difíceis de cumprir justamente nos anos em que a logística do Norte enfrenta mais gargalos.

Por que acompanhar essa mudança faz diferença na negociação?

Ignorar para onde o grão está sendo escoado e focar apenas no preço anunciado por saca deixa de fora uma variável que já pesa de forma real na formação desse mesmo preço. A rota escolhida por um comprador específico pode explicar por que duas propostas aparentemente parecidas resultam em ganhos bem diferentes.

No fim, Wander Aguilera Almeida considera que entender essa movimentação logística deixou de ser um detalhe técnico reservado a especialistas e passou a ser parte do que qualquer produtor do Centro-Oeste precisa considerar antes de fechar negócio com um comprador.

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