A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 classificou 62,1% da malha avaliada como regular, ruim ou péssima. Para Márcio Pires de Moraes, profissional com experiência em análise financeira e composição de custos, o dado vai além da logística e chega à planilha das empresas por um caminho pouco discutido nas reuniões de resultado: a infraestrutura. O levantamento, divulgado em dezembro de 2025 pela Confederação Nacional do Transporte, percorreu mais de 114 mil quilômetros de rodovias pavimentadas e estimou que as condições do pavimento elevam, em média, 31,2% o custo operacional do transporte.
Como a infraestrutura aparece na planilha de custos?
Os efeitos de rodovias precárias, portos congestionados ou fornecimento instável de energia raramente ocupam uma linha própria no demonstrativo financeiro. Eles se diluem em outras contas, como frete, manutenção de frota, seguros e perdas de mercadoria. Rodovias esburacadas aumentam o consumo de combustível e o tempo de viagem, enquanto filas em portos geram cobranças pela permanência de contêineres e caminhões. Por essa razão, muitas empresas sabem que pagam caro para operar, mas têm dificuldade de dizer quanto desse valor vem de fatores externos.
O transporte de cargas no Brasil depende majoritariamente das rodovias, modal mais caro para longas distâncias do que ferrovias e hidrovias. Uma indústria que envia produtos do interior para um porto a centenas de quilômetros paga não apenas o frete, mas também o desgaste dos veículos, o tempo de viagem mais longo e o risco de avarias em trechos mal conservados. Nos dados da mesma pesquisa, o acréscimo chega a 35,8% nas rodovias públicas e cai para 18,4% nas concedidas. Os modais alternativos, que em tese transportariam a mesma carga a um custo menor por tonelada, nem sempre estão disponíveis na rota necessária.
Custos que não aparecem na nota fiscal
Parte do impacto é indireta e, justamente por isso, mais difícil de medir. Quando os prazos de entrega são imprevisíveis, a empresa precisa manter estoques de segurança maiores, o que imobiliza capital que poderia financiar a operação ou novos investimentos. Em períodos de juros elevados, o dinheiro parado em estoque tem um custo de oportunidade alto.

Como indica Márcio Pires de Moraes, a mesma lógica vale para a energia. Interrupções no fornecimento obrigam indústrias a investir em geradores, a descartar lotes interrompidos no meio do processo e a reorganizar turnos. Nenhum desses gastos é registrado como custo de infraestrutura, embora tenha origem nela.
Efeitos sobre a competitividade empresarial
Quando o custo logístico e energético é alto, a empresa tem duas saídas: repassar o valor ao preço ou absorvê-lo na margem. No mercado interno, o repasse depende da concorrência. No externo, a situação é mais delicada, porque o produto brasileiro disputa espaço com fabricantes de países onde transportar e produzir custa menos. Exportadores de produtos de baixo valor agregado, como grãos e minérios, sentem o efeito com mais intensidade, já que o frete representa uma fatia maior do preço final.
A diferença também se manifesta entre regiões. Empresas instaladas longe dos grandes centros consumidores ou dos portos enfrentam custos maiores para receber insumos e escoar a produção, efeito que, segundo Márcio Pires de Moraes, costuma ser subestimado em planos de expansão. A infraestrutura, nesse sentido, influencia diretamente onde vale a pena investir e crescer.
O papel da gestão financeira diante da infraestrutura
A empresa não controla a qualidade das estradas ou da rede elétrica, mas pode medir com precisão quanto elas pesam. Separar os custos logísticos e energéticos na composição de custos, em vez de tratá-los como despesa genérica, permite comparar rotas, fornecedores e alternativas de transporte, como a cabotagem e a ferrovia, quando disponíveis. Com o custo de cada rota identificado, a negociação com transportadoras também passa a se apoiar em dados, e não apenas em cotações isoladas.
O planejamento de longo prazo, na interpretação de Márcio Pires de Moraes, também ganha com essa leitura. Decisões sobre onde abrir uma unidade, onde instalar um centro de distribuição ou como dimensionar estoques ficam mais consistentes quando consideram projetos de concessão, obras previstas e o custo real de cada localização. Conhecer o peso da infraestrutura transforma um problema externo em variável de gestão.
