Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista, elucida que a reconstrução da autoestima após relacionamentos abusivos, antes tratada quase exclusivamente em consultórios particulares e privados, vem ganhando espaço crescente dentro de programas públicos de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade social.
Essa mudança gradual e importante reflete um entendimento mais amplo, completo e cuidadoso de que sair fisicamente de uma relação abusiva é apenas uma parte do processo real de recuperação, e que a reconstrução emocional precisa de estrutura contínua e acompanhamento sustentado para acontecer de forma verdadeiramente efetiva ao longo do tempo necessário.
Por que esse cuidado passou a ser incorporado formalmente?
Durante muito tempo e ainda hoje em várias regiões, serviços de assistência voltados a mulheres em situação de violência doméstica concentraram esforços quase exclusivamente na segurança física imediata: medidas protetivas urgentes, abrigo temporário seguro e orientação jurídica básica sobre os próximos passos legais a seguir.
Taiza Tosatt Eleoterio comenta que, com o passar do tempo, profissionais experientes que atuam diretamente nesses serviços especializados perceberam que a ausência de suporte psicológico contínuo e estruturado fazia muitas mulheres retornarem a padrões de relacionamento bastante parecidos, mesmo depois de terem conseguido sair fisicamente da relação original que motivou a busca inicial por ajuda especializada.
Como isso aparece em programas e serviços disponíveis?
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que essa mudança gradual e importante aparece, na prática cotidiana e concreta, em grupos terapêuticos oferecidos por serviços públicos de saúde mental, parcerias entre CRAS e universidades locais para oferecer atendimento psicológico gratuito e qualificado, e programas específicos e bem estruturados voltados à reconstrução da autoestima e da autonomia emocional dessas mulheres em processo contínuo de recuperação.
Esses espaços diversos costumam combinar escuta terapêutica qualificada e contínua com atividades práticas complementares, como oficinas de capacitação profissional e rodas de conversa entre mulheres que vivenciaram situações bastante parecidas em suas próprias vidas.
O que muda para quem recebe esse tipo de apoio integrado?
Mulheres que têm acesso real a esse tipo de acompanhamento contínuo e estruturado relatam maior facilidade prática para reconhecer padrões de risco em relações futuras e ao longo da própria vida, além de menor tempo real de recuperação da autoestima pessoal em comparação com trajetórias sustentadas apenas pelo próprio esforço individual e solitário, sem qualquer apoio estruturado disponível ao longo de todo o caminho percorrido.
Além disso, essa mudança gradual também reduz consideravelmente a sensação profunda de isolamento que costuma acompanhar todo o processo de recomeço, já que a mulher passa a fazer parte real de um espaço coletivo, seguro e acolhedor, onde sua experiência pessoal é reconhecida como parte de um padrão mais amplo, comum e compartilhado, e não como uma falha exclusivamente pessoal, individual e íntima de cada mulher envolvida.
Um cuidado que tende a se expandir
À medida que mais gestores públicos, profissionais especializados e organizações da sociedade civil reconhecem que a reconstrução emocional é parte indispensável, essencial e não negociável de qualquer política pública eficaz de combate à violência doméstica, esse tipo de programa integrado, colaborativo e bem planejado tende a se tornar cada vez mais comum, acessível e disponível em diferentes regiões e estados do país inteiro.
Taiza Tosatt Eleoterio, num último ponto, frisa que esse importante movimento não substitui, de forma alguma, o acompanhamento individual quando realmente necessário, mas amplia consideravelmente e de forma real o alcance do cuidado disponível, chegando a mulheres que, de outra forma, jamais teriam acesso a esse tipo específico de suporte psicológico continuado e estruturado ao longo do tempo.
