Corrente comercial chegou a US$ 10,1 bilhões nos sete primeiros meses de 2026, enquanto os dois países discutem ampliar o acordo preferencial.
O comércio entre Brasil e Índia ganhou novo impulso e passou a chamar atenção de empresas que buscam diversificar mercados internacionais. Nos primeiros sete meses de 2026, a corrente de comércio entre os dois países alcançou US$ 10,1 bilhões, crescimento de 32,9% sobre o mesmo período anterior, enquanto as exportações brasileiras chegaram a US$ 5,89 bilhões, alta de 82,1%. Os números foram apresentados pelo MDIC após a 8ª Reunião do Mecanismo de Monitoramento de Comércio Bilateral Brasil–Índia, realizada em 28 de agosto.
O dado mais importante, porém, não é apenas o crescimento do valor negociado. Brasil e Índia discutiram ampliação do Acordo de Comércio Preferencial do Mercosul, barreiras de acesso a mercados, diversificação da pauta exportadora e investimentos. Para o exportador brasileiro, a questão central passa a ser entender se essa aproximação pode abrir espaço para produtos além das commodities tradicionais e quais obstáculos ainda precisam ser enfrentados para transformar o crescimento atual em negócios recorrentes.
Por que o comércio entre Brasil e Índia está crescendo
A relação comercial entre Brasil e Índia já apresenta uma trajetória de expansão antes mesmo dos novos movimentos diplomáticos e empresariais. Em 2025, a corrente de comércio bilateral atingiu US$ 15,2 bilhões, aumento de 25,4% em relação ao ano anterior, enquanto as exportações brasileiras somaram US$ 6,86 bilhões, alta de 30,2%. Em apenas sete meses de 2026, as vendas brasileiras ao mercado indiano já chegaram a US$ 5,89 bilhões, o equivalente a 82,1% de crescimento na comparação anual.
A pauta brasileira ainda possui forte presença de commodities e produtos ligados à disponibilidade de recursos naturais, como petróleo, óleos vegetais, minério de ferro, açúcar e algodão. Entretanto, o MDIC também identificou crescimento de produtos de maior diversidade, incluindo produtos hortícolas, matérias plásticas, bombas, centrífugas, compressores de ar, máquinas não elétricas e itens de perfumaria. Esse movimento é relevante porque uma pauta mais diversificada tende a reduzir a dependência de poucos produtos e pode ampliar a participação de empresas industriais e de médio porte no comércio bilateral.
A expansão também ocorre em sentido contrário. Entre os principais produtos importados pelo Brasil da Índia estão compostos organo-inorgânicos, medicamentos, agroquímicos e defensivos agrícolas e partes de veículos automotores. Para importadores brasileiros, essa composição mostra que a relação bilateral não se limita à venda de commodities, mas envolve insumos industriais, produtos farmacêuticos e componentes utilizados em cadeias produtivas nacionais. O resultado é uma relação comercial com potencial para conectar fornecedores indianos a setores industriais brasileiros e, simultaneamente, ampliar mercados para fabricantes e produtores nacionais.
O que a ampliação do acordo Mercosul-Índia pode mudar
Um dos pontos mais relevantes das negociações é a possibilidade de ampliar o Acordo de Comércio Preferencial entre o Mercosul e a Índia. Atualmente, o instrumento estabelece preferências para determinados produtos, mas sua abrangência é considerada limitada diante do tamanho das duas economias. A discussão de ampliação pode aumentar o número de mercadorias contempladas e, dependendo das negociações, melhorar as condições tarifárias para empresas que hoje enfrentam custos de entrada mais elevados no mercado indiano.
Para o exportador, entretanto, tarifa menor não significa automaticamente venda maior. A Índia possui exigências regulatórias, padrões técnicos, requisitos sanitários e procedimentos próprios que podem representar obstáculos mesmo quando a alíquota de importação é competitiva. Na reunião bilateral, Brasil e Índia trataram justamente de acesso a mercados e barreiras comerciais em áreas como produtos agrícolas e calçados, indicando que a agenda comercial precisa avançar além da negociação tarifária.
Outro avanço relevante envolve os Certificados Eletrônicos de Origem, conhecidos como eCoOs. A digitalização desses documentos pode contribuir para tornar mais eficiente a comprovação de origem das mercadorias e a utilização das preferências comerciais quando os requisitos forem atendidos. Para empresas que pretendem aproveitar acordos preferenciais, esse tipo de procedimento é importante porque reduz etapas administrativas e reforça a necessidade de manter informações de origem organizadas e rastreáveis.
A infraestrutura institucional também está sendo reforçada. Em agosto, a ApexBrasil e a Confederação das Indústrias Indianas assinaram um Memorando de Entendimento voltado à ampliação da cooperação comercial e de investimentos, enquanto ApexBrasil e Embraer mantêm escritórios em Nova Délhi. O objetivo é aproximar empresas, identificar oportunidades e facilitar conexões que possam transformar a aproximação governamental em contratos e investimentos privados.
Quais oportunidades aparecem para exportadores e importadores
Para uma empresa brasileira que pretende entrar na Índia, o primeiro passo não deve ser simplesmente escolher um produto que esteja apresentando crescimento nas exportações. É necessário avaliar a classificação tarifária, a demanda efetiva, os concorrentes internacionais, as exigências regulatórias e o custo logístico até o destino. O crescimento de 82,1% das exportações brasileiras nos primeiros sete meses de 2026 mostra um mercado em expansão, mas não significa que todas as categorias tenham o mesmo potencial.
A diversificação identificada pelo MDIC pode ser especialmente importante para pequenas e médias empresas. Produtos industriais, alimentos processados, itens de tecnologia, máquinas e componentes podem encontrar oportunidades quando existe capacidade de adaptação às exigências locais e uma estratégia comercial consistente. A própria cooperação firmada entre ApexBrasil e a indústria indiana tem entre seus objetivos ampliar oportunidades de negócios, internacionalizar pequenas e médias empresas e estimular investimentos entre os dois países.
Para importadores, a expansão do relacionamento pode representar maior acesso a fornecedores indianos em segmentos nos quais o país possui forte presença internacional. Medicamentos, insumos químicos, defensivos, componentes automotivos e outros produtos já fazem parte da pauta de compras brasileiras, criando oportunidades para empresas que precisam diversificar fornecedores ou buscar alternativas para suas cadeias de suprimentos. Nesse caso, a análise deve considerar não apenas preço, mas também classificação fiscal, licenciamento, requisitos regulatórios, prazo de entrega e custos logísticos.
A tendência também merece atenção de profissionais que trabalham com inteligência comercial. O Brasil e a Índia já possuem instrumentos relacionados a investimentos, tributação e conectividade aérea, além do mecanismo bilateral criado para acompanhar o comércio de bens. O Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos foi promulgado pelo Brasil em 2025, enquanto o protocolo que altera o acordo para evitar dupla tributação passou a ser aplicado no país a partir de janeiro de 2026.
O avanço de Brasil e Índia mostra que a diversificação do comércio exterior brasileiro pode ocorrer não apenas pela abertura de novos mercados, mas também pelo aprofundamento de relações que já possuem escala relevante. O crescimento das exportações, a discussão sobre ampliar preferências tarifárias e a aproximação entre empresas criam um cenário que merece acompanhamento contínuo. Para o exportador, a oportunidade está em identificar produtos com demanda e capacidade competitiva; para o importador, em mapear fornecedores confiáveis e custos totais da operação. A próxima etapa será verificar se a agenda bilateral consegue transformar o crescimento atual em maior variedade de produtos, menos barreiras e relações comerciais mais estáveis.
